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Crônica: Estatísticas deveriam ser afrodisíacas, e não anestesias

11 de maio de 2020.

Há três tipos de mentiras: as mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas. Tal frase é atribuída a Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico ainda no distante século XIX. Quando o Brasil passa rapidamente dos 10 mil mortos oficiais pelo Covid-19, me ocorre que esse número esconde, além da mentira da  subnotificação, uma outra prática terrível: a desumanização da morte! Quem morre vira estatística, não um momento de dor e de luto para os que ficam, não mais um nome e uma história de vida, não mais o centro de um grupo social por onde orbitavam outras pessoas e de quem também faziam parte com suas próprias histórias de vida. Quem morreu cai numa vala comum da manchete do jornal e acabou-se. Sequer seu último suspiro pode ajudar que outros tenham melhor chance, dado que as estatísticas, ao que parecem, servem mais para um "Meu Deus, que pena!" do que "é preciso fazer alguma coisa para que não haja mais casos como o do João da Silva ou Maria Souza, pai e mãe da Alice e Juliano".

Não é de hoje que fazemos isso. É só voltarmos um pouco antes da pandemia e nos perguntarmos: quantos de nós sabem que morrem, anualmente, mais de 60 mil pessoas no Brasil por morte violenta? Ou que sabem e se importam? Esse número representa 10% de todas as mortes desse gênero no mundo, dentre os mais de 190 países, incluindo aí todas as guerras em curso no planeta! Em 2019, até setembro, mais de 30 mil pessoas haviam sido assassinadas no Brasil*. De 2006 a 2016, foram mais de 500 mil. A Folha de S. Paulo** fez as contas: "mais da metade do número de soldados ingleses, franceses e italianos que perderam a vida na Segunda Guerra Mundial (1945-1949)". O que isso nos causou? "Oh, meu Deus, que triste!", ao invés de algo como "o que podemos fazer para acabar com os cinco Covid-19 que temos anualmente?"

 

Quem está no grupo de risco deve se lembrar quais eram as manchetes policiais na sua infância. Quando alguém era assassinado, havia destaque, a imprensa acompanhava os desdobramentos e muitas vezes não sossegava até que houvesse uma resolução. A vítima tinha nome, profissão, sabia-se onde morava, e já na matéria levantavam-se as motivações, bem como os possíveis suspeitos. No interior, algumas cidades pequenas ainda vivem assim, pois mortes violentas devem ter a comoção necessária da comunidade. A morte de um dos nossos é a morte de um pedaço de cada um, seres gregários que somos. Não é à toa que, para muitos cientistas da Humanidade, a morte é o que nos define. A consciência de sua existência, que nos encontrará em breve, guiou nossos passos pela Terra, na ânsia de fazer valer a pena este segundo de existência.

Quando em um fim de semana morre gente suficiente para inviabilizar a publicação de um jornal contando a história de cada um desses dramas, dá-lhe estatísticas. Número não tem nome nem cara, não dá para saber se é aquele filho da Candinha, ou se o horrível assassino é aquele facínora que devia estar na cadeia antes ou o pobre coitado que apenas procurou se defender. Se não sei quem são os humanos atrás da tragédia, não preciso (ufa!) me envolver. As estatísticas, portanto, nos servem como uma bela anestesia aos nossos sentimentos, uma brutal insensibilização. Mas, poxa, isso não é legal? A gente já sofre tanto.... Não, não é. Nossos antepassados, na maioria, tiveram vidas sofridas. É da Humanidade, a resiliência é também o que nos define. Estamos vivendo tempos em que sofrer se vende como um item opcional, e as estatísticas são um produto de consumo para esses tempos.

Bem, talvez eu esteja exagerando, os estatísticos podem levantar inúmeras vantagens sobre seus dados (sim, concordo que elas existem de montão, principalmente para estabelecimento de políticas públicas). Mas, talvez essa visão negativa seja herdada da minha sensibilidade biológica provocada pela minha asma, bronquite e alergias. Desde o princípio da pandemia, minha preocupação é virar estatística: ficava realmente furioso de pensar que, se morrer, vou entrar naquela cota dos com “doença pré-existente”. Percebe que a responsabilidade de morrer passaria para mim? Ora, quem mandou ser asmático, bronquítico e alérgico? Mesmo que eu administre com obsessão a minha doença crônica e, graças a isso, há muitos anos não tenho crise, a estatística salvaria as poucas pessoas que saberiam do ocorrido. Elas se anestesiarão com algo como "ah, é porque ele tinha asma, por isso morreu". Como assim, helooo, quem me matou foi um vírus, e não lá muito forte, mas que teve a capacidade de escancarar o quanto nosso sistema de saúde, público e privado, estava despreparado, o quanto não houve de investimentos anteriores, mesmo que seus colegas vírus e bactérias tenham dado spoiler nos últimos anos. Essa conta não é minha, mas as estatísticas...

Esse protesto, estou quase certo, não se faria ouvir. Já estarei nas mudas estatísticas, essas efêmeras estatísticas, que saem já com vontade de serem esquecidas para que recebamos as seguintes. Esse desprezo é apropriado pelos poderes de gestão da coisa pública. Fica bonito falar em números, inclusive os profissionais de oratória recomendam. Com isso, o palestrante mostra conhecimento, mas, ao mesmo tempo, não choca seus ouvintes, anestesiados com algarismos e não escancarando sangue no power point. A cara de preocupação do apresentador serve como catarse momentânea e vida que segue depois dos “é o que temos para hoje”.

 

Precisamos ver as pessoas, é preciso se sensibilizar. Talvez por isso a tragédia de outro mal, da AIDS, tenha tomado um caminho diferente. Milhões morreram nas últimas décadas, mas outros milhões convivem com as soluções que a ciência achou e transformou uma morte certa em uma doença crônica tratável. Como foi uma doença que se alastrou com menos velocidade, os nomes e suas histórias de vida foram incomodando e movimentando as comunidades científicas e governamentais. O atacado do Covid-19, somado a nossa atual dependência patológica de novidades a cada deslizada de dedo, fez os gripados terminais serem pipoca diante do filme em velocidade máxima em que atuamos. O que também justificaria o aumento de casos de HIV***, dado que tal doença, uma vez longe dos olhos mas dentro das estatísticas, não seja mais nossa prioridade na atualização do site humano.

 

O desprezo das estatísticas pelas histórias de vida daqueles numerados também deve ser a justificativa (às vezes, injusta) do porquê as ciências humanas também as desprezam em suas investigações. Não deveriam, como também não deveriam as áreas da saúde, entre outras, olharem com ainda maior desprezo para as pesquisas qualitativas da nossa área (certamente, respeitando aqueles inúmeros pesquisadores que acreditam haver alma ou coisa parecida atrás dos números). Como sempre, o Humano está no meio das radicalidades, rindo de até onde podemos chegar com nossas idiossincrasias.

 

Sim, as estatísticas têm importante papel, mas, repito, este não é o de insensibilizar a Humanidade. É para incentivar, alertar, colocar sangue nos olhos e nos excitar em busca de soluções, habilidade que é outra das nossas boas características.

 

Mas, por isso, me permito a raridade do exercício de pessimismo. Esse é um dos motivos pelos quais não acredito tanto nas mudanças que dizem vão acontecer depois da pandemia. As estatísticas da gripe espanhola não sensibilizaram a Humanidade para investir o suficiente para evitarmos uma nova tragédia. Como em outro dito, "o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra". Aliás, frase atribuída a uma série de pessoas, mas que não consegui ter certeza de nenhuma (o Papa disse em 2017, mas já conheço há décadas..., ah, também não está na Bíblia, já procurei). Por sinal, a atribuição da frase que abre este artigo pode ser também uma mentira, já que não há comprovação de que seja mesmo do ex-primeiro ministro.

 

É... na vida não é fácil achar a tal verdade. Mas tentar escondê-la atrás de frios números só nos torna mais tristes

*Brasil registra queda de 22% nas mortes violentas em 9 meses, revela índice nacional de homicídios. G1, 25 nov. 2019.

**Total de mortes violentas no Brasil é maior do que o da guerra na Síria. Folha de S. Paulo, 6 jun. 2018

​***Brasil registrou aumento de 21% de casos de HIV entre 2010 e 2018, diz ONU. UOL, 14 out. 2019.

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